Pesquisar no blog

terça-feira, 3 de abril de 2012

"Não existe gramática universal", diz linguista americano

MISSIONÁRIO E LINGUISTA AMERICANO DIZ QUE A PRIMEIRA FASE DA TRADUÇÃO DA BÍBLIA É ENTENDER BEM COMO FUNCIONA A LÍNGUA

Daniel Everett é um linguista conhecido principalmente por ter estudado a língua do povo pirahã, que vive na bacia amazônica.
Seu novo livro, "Language: The Cultural Tool" (Profile Books, £ 14,99), explora sua teoria da linguagem.

Para Everett, ela não é inata, e sim uma ferramenta desenvolvida pelos humanos para solucionar problemas.

"GUARDIAN"- Você começou como missionário e então tornou-se linguista. Como isso aconteceu?

*DANIEL EVERETT - * Entrei para uma organização chamada Wycliffe Tradutores Bíblicos, cujo objetivo era traduzir a Bíblia para todas as línguas do mundo. Para isso, era preciso estudar linguística, então foi essa minha exposição inicial à linguística.

A primeira fase da tradução da Bíblia é entender como funciona a língua [para a qual se vai traduzir]. Eu me dei conta de que queria levar meus estudos adiante, com uma pós-graduação.

Você poderia fazer um resumo muito breve da afirmação essencial deste livro?

Há duas afirmações; a primeira é que a gramática universal não parece funcionar, que não parece haver muita evidência em favor dela. E o que podemos colocar em seu lugar? Uma interação complexa de fatores na qual a cultura --os valores que os seres humanos compartilham-- exerce um papel preponderante na estruturação do modo como falamos e das coisas sobre as quais falamos.

A partir de sua experiência na Amazônia, e de modo geral, o que é que possibilita a linguagem?

A linguagem é possível graças a uma série de características cognitivas e físicas que são singulares dos humanos, mas nenhuma das quais pertence exclusivamente à linguagem. Quando elas se juntam, possibilitam a linguagem. Mas o elemento fundamental a partir do qual a linguagem é construída é a comunidade.

O linguista americano Daniel Everett (dir.) no rio Maici, no Amazonas, posa para foto com um pescador pirahã

Nós, humanos, somos uma espécie social, mais do que qualquer outra, e, para construir uma comunidade, algo que por algum motivo os humanos precisam fazer para poderem viver, temos que resolver o problema da comunicação. A linguagem é uma ferramenta que foi inventada para solucionar esse problema.

Você estudou a comunidade pirahã, na Amazônia central. Existe algo de especialmente interessante na língua pirahã?

Fui enviado para lá para traduzir a Bíblia para a língua deles, porque ninguém tinha conseguido decifrar a língua; ela não guarda relação com nenhuma outra língua viva conhecida. Todas as línguas possuem características singulares, mas a pirahã parece ter muitas características únicas. Coisas que não esperávamos.

Me refiro à ausência de números, a ausência da contagem e das cores, a ausência de mitos de criação e a recusa em falar do passado distante ou do futuro distante. Várias coisas como essa, incluindo a característica especial da recursividade, a possibilidade de manter um processo em andamento na sintaxe para sempre.

Essa constelação de características realmente pedia uma explicação, e levei cerca de 20 anos para me dar conta de que poderia haver uma explicação unificadora de todas essas coisas. Minha experiência com os pirahãs foi absolutamente fundamental para moldar minhas ideias sobre a linguagem humana.

Quanto tempo levou para aprender a língua?

Não existe idioma em comum, então comecei simplesmente apontando e aprendendo substantivos e verbos. Inicialmente passei um ano na aldeia com minha família, e ao cabo desse ano eu já conseguia falar, conseguia dizer várias coisas. Depois dos dois anos seguintes eu já conseguia dizer praticamente qualquer coisa que quisesse, e hoje, depois de um total cumulativo de quase oito anos passados na aldeia, falo a língua pirahã muito bem.

E como os pirahãs enxergaram você?

Inicialmente me viram como uma espécie de papagaio falador. Quando eu estava aprendendo a língua, era difícil para eles compreenderem que eu realmente entendia parte do que eles estavam dizendo. Pensavam que eu estava apenas os imitando, como um animal da selva. Eu dizia algo a eles e eles comentavam "veja, ele soa como nós", e falavam a meu respeito. E eu dizia: "Mas eu estou entendendo vocês, sim. Eu falo pirahã".

Num primeiro momento foi difícil para eles se darem conta disso, e as crianças me olhavam boquiabertas. Mas hoje eles me aceitam muito bem.

Você fala de uma gramática da felicidade. É uma ideia bela, mas será que você está apenas perpetuando mais um mito?

Penso que não. Em meu primeiro livro, "Don't Sleep, There Are Snakes", descrevo os pirahãs como pessoas muito felizes. Isso não significa que todo o mundo viva feliz o tempo inteiro: eles enfrentam dificuldades, têm inseguranças, se irritam, enfrentam perigos.

Mas na realidade foi outro pesquisador do MIT que foi lá comigo e, olhando para o povo, comentou: "Devem ser as pessoas mais felizes do mundo", e eu disse: "Como você mediria isso?". Ele respondeu: "Poderíamos medir quanto tempo eles passam rindo e sorrindo e comparar isso com qualquer outra sociedade. Não vejo ninguém aqui que não passe a maior parte do tempo rindo ou sorrindo."

Existe entre os pirahãs um contentamento grande que não vi igualado por nenhuma outra sociedade.

Então você não esteve em risco?

Inicialmente, sim, é claro. Num primeiro momento eles não me enxergavam como um ser humano do mesmo tipo que eles são. E se sentiram um pouco ameaçados, inicialmente, quando comecei a trabalhar ali, apesar de eu ser o terceiro grupo missionário com que tinham tido contato. Eles chegaram a ameaçar nossas vidas em nossa primeira visita.

De que maneira?

Acordei por volta de meia-noite e os ouvi dizer que um comerciante brasileiro lhes tinha dado uísque e uma espingarda nova para matar minha família. Eles estavam dizendo: "Não tenho medo. Vou matar o americano." Então eu me levantei e andei pelo mato até chegar ao lugar onde estavam conversando.

Eu sabia que todos tinham bebido, então eu simplesmente entrei na roda, falei "oi, como vão vocês?" e comecei a recolher os arcos e flechas e a espingarda. Quando eles se deram conta do que estava acontecendo, eu já estava com tudo em meus braços e tinha voltado para minha casa. Quando estava voltando para minha casa, ouvi uma voz de meu lado, saindo do meio do mato, dizendo "vou matar você agora mesmo". Era um homem pirahã.

Eu me virei e pensei que receberia uma flecha na cara ou um tiro de espingarda, mas ele estava simplesmente em pé ali, desarmado. E bêbado. Assim, não fui morto. Mas no dia seguinte todos pediram desculpas e disseram: "O álcool faz coisas estranhas em nossas cabeças". Eu disse "faz coisas estranhas nas cabeças de todo o mundo, mas não quero isto daqui perto de minha família. Ou a gente pode ir embora, ou então vocês não fazem isso de novo." Eles disseram "ok, prometemos não fazer de novo". Mas fizeram!

Fizeram mesmo?

Sim, eles têm problemas com álcool. Os índios americanos, da América do Norte e do Sul, não possuem a enzima necessária para decompor o álcool, e por isso não conseguem processar o álcool como nós fazemos. Um pouco de álcool tem um efeito muito maior. Eles têm um problema real com isso.

Mas o governo brasileiro vem reprimindo esse comércio, de modo que os índios não têm mais muito acesso ao álcool. O governo brasileiro acredita que as pessoas não deveriam poder levar álcool a índios.

E quando você retorna, como os pirahãs o recebem?

Não existe saudação. O mais perto que eles chegam de saudar alguém é dizer "bem, você chegou". Isso é o que existe na língua deles que mais se aproxima de uma saudação. Todos eles me conhecem, todos os pirahãs vivos me conhecem. Há cerca de 750 deles hoje.

Como eles o chamam?

Meu nome em pirahã é Paouisa, que significa um velho pirahã que morreu, que é muito respeitado --eles me dizem que tenho esse nome porque sou tão velho. A expectativa média de vida deles é 45 anos, principalmente devido à malária.

Qual é a lição a tirar de tudo isso do ponto de vista linguístico, a seu ver?

A lição é que a linguagem não é algo misterioso que é está fora dos limites da seleção natural ou que simplesmente apareceu por meio de algum gene que passou por uma mutação. Que a linguagem é uma invenção humana que surgiu para trazer uma solução a um problema humano.

Outros seres não podem usá-la pela mesma razão que não podem usar uma pá: a linguagem foi inventada por humanos, para humanos, e seu êxito é avaliado por humanos.

Suas teorias sobre as origens da linguagem diferem da ideia de gramática universal postulada por Noam Chomsky.

Minha ideia de linguagem dificilmente poderia ser mais diferente da de Chomsky. Procuro não atacar ou dizer coisas destemperadas no livro, apesar dos ataques dele contra mim.

Não quero ser visto como alguém que tem rixas pessoais a resolver. Estas são conclusões às quais cheguei depois de 30 anos de trabalho. Acho que Chomsky está totalmente equivocado em suas afirmações mais importantes e tentei fundamentar meus argumentos com provas.

Olhando para isso tudo com um pouco de recuo, é Aristóteles e Platão, tudo de novo?

As raízes destas teorias vêm de muito tempo atrás: a teoria de Chomsky remete a Platão, e a minha, a Aristóteles. É incrível, não é? Quantas boas ideias os gregos já não tiveram milhares de anos atrás?

Fonte: Guardian

Tradução Folha.com.br

Nenhum comentário:

Ofertas Exclusivas!!!!